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segunda-feira, 16 de maio de 2011

LEITURA: SOBRE O TEXTO

Caros alunos,

Neste post, tratarei novamente da leitura. Desta vez, resolvi escrever especificamente sobre o texto – essa espécie de objeto que está tão presente no dia a dia de todos desempenhando as mais diversas funções. Como vocês podem imaginar, muitos estudiosos já examinaram esse tema por meio de abordagens variadas e, muitas vezes, divergentes.  Em minha opinião, não faz muito sentido mencionar, no contexto do PVS, as muitas definições do termo texto. Sendo assim, porque desejo ser prático, não vou apresentar uma definição específica de texto; ao invés de dizer o que o texto é, prefiro dizer o que ele não é.

1- UM TEXTO NÃO NECESSARIAMENTE É CONSTRUÍDO POR PALAVRAS

Quando se fala em texto, geralmente se pensa em uma folha de papel ou em uma tela preenchida por letras, palavras, orações e parágrafos. No entanto, se paramos um pouco para pensar, percebemos que essa noção de texto é muito reduzida. Afinal, nós não apenas nos comunicamos por meio de palavras escritas. 

Desde que nascemos, somos capazes de atazanar a vida de nossos pais porque estamos com fome, com sede, com cólica, com o nariz escorrendo ou apenas porque precisamos chamar a atenção de todos, não é verdade?

Criança exercitando sua capacidade comunicativa.

Sabemos ainda que, geralmente por volta dos três anos de idade, já conseguimos empregar palavras não só para fazer todas aquelas coisas ditas anteriormente, mas muitas outras. Em suma, desde pequenos utilizamos uma língua, ou seja, produzimos textos orais.

No entanto, se pensarmos ainda mais, vamos notar que possuímos acesso a muitas outras formas de linguagem. Quem nunca brincou de mímica? Quem, balançando seu próprio corpo ao som de uma música, nunca se exibiu – ou pelo menos tentou se exibir  para alguém? (Fala sério, quem você quer enganar? Você já tentou dançar sim! Pode ser que você minta para mim, mas não para o seu espelho. A propósito, eu já tentei, mas não me peçam para contar essa história). 

TEXTO VERBAL E TEXTO NÃO VERBAL

Música, cinema, pintura, dança, – e a lista poderia continuar –, todas essas manifestações são formas de linguagem utilizadas pelo ser humano que não necessariamente utilizam palavras. Apesar disso, elas não deixam de ser textos, pois, através delas, exprimimos nosso pensamento, nos comunicamos e influenciamos os outros. Chamamos um texto de verbal quando ele, obviamente, for formado apenas de linguagem verbal, como uma poesia, um conto, etc. Quando um texto for formado por qualquer outra linguagem que não seja verbal – como a visual, a musical etc.–, estaremos diante de um texto não verbal (Vocês estão lembrados da aula na qual falei sobre estratégias argumentativas? Se vocês se lembram, então agora vão pensar duas vezes antes de dançar na frente de alguém. Sabem como é, pode não ser um recurso muito persuasivo). E quando um texto for formado por mais de uma linguagem, como um filme, por exemplo? Nesse caso, temos textos em linguagem mista

Gustavo, eu preciso decorar isso? Não, meus caros.

2- “O TEXTO NÃO É UM AGLOMERADO DE FRASES” (FIORIN & PLATÃO, 2007, p.11)

Observe as imagens abaixo:
A)








Separadas do contexto original, essas imagens não passam de fotografias de uma mulher e de um homem. Mas, quando as observamos integralmente, ou seja, do modo como seu autor as elaborou, poderemos reconhecer um discurso que levanta questões sobre a identidade, sobre os papéis sociais do homem e da mulher ou ainda sobre a sexualidade. Veja o original:

Foto de Tomek Sikora

Esse exemplo simples, nada original – a ideia de fragmentar uma imagem foi retirada do livro de Fiorin e Platão; referências ao final – mostra-nos duas coisas:

a) que não podemos ler um texto considerando apenas uma de suas partes;

b) que o significado de um texto depende do seu contexto;

Como apontam Cereja, Cochar e Neto (2009, p.24), uma frase simples "Como o senhor quer as costeletas?", por exemplo, em contextos distintos, terá significados totalmente diferentes.  Pensem nesse texto sendo produzido em uma barbearia ou em um restaurante. Apesar de conterem as mesmas palavras, o sentido deles é totalmente diferente, não é? Portanto, se quisermos compreender qualquer parte de um texto, teremos de cotejá-la com as outras partes que formam o texto.

3- UM TEXTO NUNCA É ISENTO

Como se sabe, nenhum texto é isento. Todo enunciado, antes de ser produzido, passa por um seleção linguística feita pelo falante. Além disso, os enunciados dialogam com outros discursos construídos na sociedade da qual ele faz parte. Por exemplo, quando alguém diz que "O Flamengo é o time mais vencedor do futebol brasileiro", diz, ao mesmo tempo, que os outros times nacionais não são os mais vencedores (isso sem falar que esse enunciado diz que seu falante está, no mínimo, embriagado). O autor desse enunciado escolheu o Flamengo, mas poderia ter escolhido o Vasco ou o Fluminense (nesse caso, sabe-se lá que droga ele teria tomado...), por exemplo. Além disso, o falante poderia dizer que o Flamengo foi o clube mais vitorioso do futebol brasileiro. Ou seja, ele poderia ter escolhido outras formas de dizer. O que quero mostrar é que, para cada palavra numa língua, há uma outra que poderia ser colocada em seu lugar. Isso mostra que todo enunciado é fruto de uma escolha. Sendo assim, todo enunciado é parcial. 

Nas imagens ou em um espetáculo de dança também é assim. Se sou o diretor, posso usar diversos tipos de ângulos, movimentos de câmera, procedimentos de montagem etc. A significação desses textos vai depender da seleção e da arrumação desses recursos. Conclusão: há sempre uma intenção em todo enunciado, mesmo que ele pareça isento, como uma notícia de jornal, por exemplo. 

Bom, caros alunos, espero que o post tenha contribuído para ampliar o conhecimento de vocês sobre o texto. Em breve, vou escrever mais sobre o assunto. Além disso, começarei a publicar aqui no blog exercícios que trabalham com esses pontos, principalmente os da prova do ENEM.
Grande abraço,
Gustavo

Livros utilizados neste post:

FIORIN, José Luiz & PLATÃO, Francisco. Para entender o texto: leitura e redação. 17ª. ed. São Paulo: Ática, 2007.


CEREJA, William Roberto et al. Interpretação de textos: construindo competências e habilidades em leitura. 1.ed. São Paulo: Atual, 2009.



Sites de onde retirei as imagens







quarta-feira, 27 de abril de 2011

LEITURA: O LEITOR CRÍTICO E AS QUESTÕES DE LEITURA

Caros alunos,

Felizmente, nos últimos anos, por conta de inúmeros motivos que não serão comentados aqui, tanto os vestibulares quanto os exames vinculados ao MEC (Enem, Prova Brasil, Saeb, entre outros) cada vez mais dão destaque à leitura. Como venho destacando em nossas aulas, essas provas estão muito preocupadas com a avaliação da competência leitora dos candidatos.

Diante disso, muitos de vocês poderão pensar o seguinte: “Mas eu sei ler desde que fui alfabetizado...” Bom, caros alunos, a questão é muito mais ampla porque ler, ao contrário do que diz o senso comum, é uma atividade que envolve estratégias muito mais complexas do que a simples decifração de letras, sílabas e palavras; ler vai além da mera extração de determinados conteúdos de um texto.

Os professores universitários que preparam os vestibulares e exames nacionais sabem muito bem disso. Por esse motivo, muitas questões elaboradas por eles têm por objetivo avaliar se vocês, candidatos, são leitores competentes, críticos. É bom ressaltar que a avaliação das habilidades de leitura não é feita apenas nas provas de língua portuguesa ou no exame de linguagens, códigos e suas tecnologias. Em todas as provas vocês encontrarão textos dos mais diversos gêneros (gráficos, fotografias, pinturas, desenhos geométricos, fórmulas etc.).

“Ok, Gustavo, mas o que é um leitor competente?”

Em linhas muito gerais, pode-se dizer que o leitor competente, crítico é capaz de entender e de julgar o que está lendo. Esse sujeito estranho, ainda que não saiba disso, emprega estratégias para compreender tanto o que está explícito nas linhas do texto quanto o que está implícito. Nas palavras de Platão e Fiorin, o bom leitor “nunca pode deixar de apreender o pronunciamento contido por trás do texto.” (PLATÃO & FIORIN, 2007, p.14)

Além disso, o leitor competente não se mantém em um estado passivo aceitando tudo que o texto diz – ele não é uma esponja que absorve informações. Ao contrário, ele, no processo de construção de sentidos, levanta hipóteses, faz inferências, se interroga e interroga o texto permanentemente.

Como já dito, em todas as provas de vestibulares vocês encontrarão textos dos mais diversos gêneros e que se constroem não somente pela linguagem verbal. Está aí mais uma característica do leitor competente: ele é capaz de ler diversos textos – verbais e não verbais – de gêneros e linguagens variados.

Para exemplificar como tudo que foi dito aparece nas provas, vejamos uma questão do Enem comentada por William Cereja, Thereza Cochar e Ciley Neto no livro Interpretação de textos: construindo competências e habilidades em leitura.

QUESTÃO

Os transgênicos vêm ocupando parte da imprensa com opiniões ora favoráveis ora desfavoráveis. Um organismo ao receber material genético de outra espécie, ou modificado da mesma espécie passa a apresentar novas características. Assim, por exemplo, já temos bactérias fabricando hormônios humanos, algodão colorido e cabras que produzem fatores de coagulação sanguínea humana. O belga René Magritte (1986 – 1967), um dos pintores surrealistas mais importantes, deixou obras enigmáticas.

Caso você fosse escolher uma liustração para um artigo sobre os transgênicos, qual das obras de Magritte, abaixo, estaria mais de acordo com esse tema tão polêmico?


A (   )

B (   )

C (   )

D (   )

 E (   )


COMENTÁRIO
"Trata-se de uma questão que envolve duas ares de conhecimento: Biologia e Artes. A rigor, do ponto de vista do tema – a criação artística, ou a relação entre a realidade concreta e outra realidade (a artística) criada a partir dela – todas as telas poderiam ilustrar um artigo sobre transgênicos. Contudo, vejamos os passos necessários para que o estudante chegasse à melhor alternativa.

Primeiramente, ele deveria ler o texto verbal e identificar a informação principal do texto. Depois, deveria observar as telas, analisar cada uma e compará-las. Em seguida, deveria relacionar com as pinturas as pistas fornecidas pelo texto verbal, especialmente a de que ‘um organismo ao receber material genético de outra espécie [...] passa a apresentar novas características’. Por último, deveria concluir que a alternativa b é a mais adequada, uma vez que apresenta um ser que é meio peixe e meio ser humano, ou seja, um ser com características diferentes, mistas, provenientes de duas espécies diferentes.

Esse conjunto de ações ou de operações, como observar, analisar, relacionar, concluir e comparar, entre outras, traduzem as habilidades necessárias para lidar com a leitura e a interpretação de textos. Avaliar a competência leitora de uma pessoa é verificar até que ponto essas habilidades foram desenvolvidas durante sua vida escolar.” (CEREJA, MAGALHÃES, CLETO, 2009, p.40-41)

Pessoal, espero que esse primeiro post tenha minimamente esclarecido para vocês o que é ler de maneira crítica e competente. Claro que voltarei a esse assunto, não apenas nas aulas, mas também aqui no blog. Falarei sobre as habilidades e estratégias de leitura, sobre textos verbais e não verbais, sobre gêneros. Enfim, fiquem conectados.

Um abraço,
Gustavo


Livros utilizados neste post:

FIORIN, José Luiz & PLATÃO, Francisco. Para entender o texto: leitura e redação. 17ª. ed. São Paulo: Ática, 2007.

CEREJA, William Roberto et al. Interpretação de textos: construindo competências e habilidades em leitura. 1.ed. São Paulo: Atual, 2009.



domingo, 10 de abril de 2011

Imagem da semana: sem título - Banksy















Caros alunos,

Dando continuidade ao projeto de postar uma imagem por semana para discutir com vocês, posto aqui um grafite (não sei exatamente se esse é o melhor nome) de um artista de rua britânico chamado Banksy. Como vocês sabem, a imagem do plano de fundo deste blog, que foi pintada no muro que separa os assentamentos israelenses na palestina, também é dele.

Resolvi postá-la, não só porque gosto muito do trabalho do Banksy, mas também porque, por meio dela, posso ensinar a vocês lições importantes sobre os textos (lições que, verdade seja dita, aprendi com José Luiz Fiorin e Francisco Platão Savioli no interessantíssimo livro Para entender o texto: leitura e redação. 17.ed. São Paulo: Ática, 2007).

Lição número 1: “Com muita frequência, um texto retoma passagens de outro”, citando-o com, basicamente, dois objetivos:

a) “reafirmar alguns sentidos do texto citado”
b) “inverter, contestar e deformar alguns dos sentidos do texto citado”

Sendo assim, pergunto eu: que imagens estão sendo retomadas por esse texto e qual seria o objetivo dessa citação: reafirmar os sentidos dos textos citados ou contestá-los?

Lição número 2: “Uma boa leitura nunca pode deixar de apreender o pronunciamento contido por trás de um texto”

Tanto a escolha quanto a arrumação das imagens dão sentido ao grafite, portanto, não foram feitas de maneira despropositada. Por trás delas (ou pela frente, visto que é bem perceptível), há a defesa de uma tese. Diante disso, pergunto eu: que tese é essa?

Divirtam-se! Quem acertar primeiro ganhará uma bala Juquinha de presente.

Abraço a todos,
Gustavo

ps: quem se interessar pelo Banksy pode procurar o filme chamado Exit Throught the Gift Shop, de 2010. Infelizmente, ainda não há versão brasileira, mas certamente vocês encontram o arquivo do filme na internet, inclusive a legenda em português.  

Link  para o filme no IMDB (The Internet Movie Database): http://www.imdb.com/title/tt1587707/ (conteúdo em inglês)

Link para a página do Wikipédia que trata do Banksy: http://pt.wikipedia.org/wiki/Banksy (conteúdo em português)

Link para a página oficial do artista (em inglês): http://www.banksy.co.uk/

terça-feira, 5 de abril de 2011

Imagem da semana: O grito (Skrik), Munch

Prezados alunos,

Talvez vocês não saibam, mas os vestibulares frequentemente solicitam que os candidatos identifiquem as relações de sentido contidas entre dois textos. Algumas vezes, é pedido, mais especificamente, que se reconheçam as citações de um primeiro texto - texto matriz, que gera outro texto - em um segundo. Como se sabe, em muitos casos, se o leitor não tiver os dados a respeito desses textos matriciais, não conseguirá reconhecer a intertextualidade, não alcançando, assim, a compreensão global necessária.
Além disso, também é comum, principalmente na prova da UFF, aparecerem textos não-verbais.
Por esses motivos, e por muitos outros, nunca é demais conhecer algumas imagens importantes que circularam e que circulam em nossa sociedade. Sendo assim, a fim de contribuir para que vocês construam um repertório de leitura, resolvi dedicar um post por semana a imagens famosas e interessantes.
A desta semana foi tema de uma questão da UFF há alguns anos atrás. Trata-se de um famoso quadro do pintor norueguês Edvard Munch chamado O grito (Skrik).
Cito algumas palavras encontradas na página do Estado de São Paulo (fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,o-munch-que-o-grito-quase-fez-esquecer,534565,0.htm):
"[o quadro] mostra uma figura deformada, pouco mais do que um vulto, que lança um grito numa ponte. Pintado no século 19, os historiadores garantem que surgiu como uma reação do autor ao impressionismo. Ao desespero da figura soma-se o apocalipse de céu e terra que se misturam numa massa única e caótica, em cores de fogo. "O Grito" virou um marco não só das artes visuais, mas do pensamento. Muitos críticos veem no quadro de Munch a origem do movimento expressionista, que marcou o cinema alemão nas primeiras décadas do século 20. [...]"

ArtistaEdvard Munch
Ano1893
TipoÓleo sobre telaTêmpera e Pastel sobre cartão
LocalizaçãoGaleria Nacional, Oslo

Um abraço a todos,
Gustavo